Incômodo

Lendo esse poema que Pablo Neruda escreveu em homenagem a Stálin, fico incomodado. Nem é tanto pelo cara escrever uma ode ao maior assassino em massa do século XX, quiçá da história. Não: o que me incomoda é que eu imagino o Neruda bem à vontade numa casa de praia da Ilha Negra, escrevendo cada verso enquanto olha um retrato de Stálin e mantém pelo menos um dedo enfiado bem fundo no cu.

terapia

Terapia-tapioca

Eu vou contar um negócio, mas vocês não podem me chamar de bicha. Ok?

Estou fazendo terapia…

 

EU FALEI PRA NÃO ME CHAMAR DE BICHA, CARALHO!

 

Então. Tô fazendo terapia. Acontece que morreu um monte de gente, aí aconteceram coisas no trabalho e eu acabei tendo um piripaque. Fui pro pronto-socorro, diagnosticaram crise de pânico (“Ué, doutor, mas eu trabalho no CQC…”, uma piadoca sem graça que me rendeu olhares estranhos). Deram lá um remedinho e falaram que eu precisava procurar um psiquiatra. Fui à psiquiatra e ela me receitou antidepressivos e terapia.

Logo de cara, achei a idéia uma merda. Sou a favor das pílulas da alegria, mas psicanálise sempre me cheirou a charlatanismo. Só que aí falei com um, falei com outro, muita gente me falou que era legal e eu pensei: “Tá, vamos tentar saporraê”. A psiquiatra me indicou uma amiga dela, marquei a consulta e fui lá.

Já na primeira consulta eu fiquei com vontade de não voltar mais. Contei o que estava acontecendo e falei que estava especialmente indignado por meu pai ter morrido tão novo, aos 66 anos. Os pais dele viveram até os 85. Alguns dos meus bisavós passaram dos cem. E aí ela bota a mão no queixo e comenta:

— Nossa, que família longilínea

Longilínea.

LONGILÍNEA.

Não consegui prestar atenção em nada mais do que ela disse aquele dia. Sempre que ela abria a boca, eu ouvia “Nossa, que família longilínea” e respondia mentalmente: “É LONGEVA, PORRA!”

Mesmo assim, voltei na semana seguinte. Falei dos meus interesses, falei do quanto gostava da Bíblia e tal. No final da sessão, ela disse:

— E agora você está chegando no seu Muro das Lamentações.

(eu olhando com cara de nada)

— Que é uma das passagens mais lindas, né?

(eu olhando com cara de “hein?”)

— Quando Cristo chega no Muro das Lamentações…

(eu olhando com cara de “calabocapelamordedeus”)

— Ele sofre, mas é o momento em que ele se encontra consigo mesmo.

— É… — (olhando com cara de “Pai, perdoai-a…”)

Com coisas assim eu fui perdendo o interesse pela terapia. Inventei desculpas para não ir. Quando ia, falava só de questões comezinhas (comezinhas!): problemas no trabalho, planos para o fim de semana, a castração do cachorro. E sempre qualquer coisa que eu dizia ela transformava numa analogia e esticava essa analogia até não poder mais. Uma vez eu contei uma história pra ela que eu não posso contar pra vocês porque prometi segredo à protagonista. Basta dizer que envolvia uma catota que acidentalmente caiu do nariz dessa pessoa no banco do meu carro. Essa pessoa ficou com medo de levar bronca e eu fiquei mal por isso. Contei essa história e depois entrei em outros assuntos. A cada coisa que eu dizia, ela comentava:

— Está vendo? Essas são as melecas que vão caindo no seu caminho. Você se envergonha, mas talvez fosse melhor admitir, “Olha, derrubei essa meleca aqui”.

Na semana seguinte, contei pra ela o que estava me incomodando na terapia. Falei da família longilínea, do Muro das Lamentações, das analogias levadas longe demais. Ela riu, pediu desculpas, ficou com vergonha. Só que tudo continuou mais ou menos a mesma coisa, então há três semanas eu liguei para avisar que não ia mais.

— Você não vem hoje ou não vem nunca mais? — perguntou a recepcionista.

— Não vou nunca mais.

— E você quer que a doutora ligue para conversar com você?

— Se ela quiser…

Ela não quis. A única reação dela foi depositar os últimos dois cheques (além de tudo, a mulher era desorganizada e deixava meus cheques dando bobeira na gaveta).

Bom, então fui procurar alternativas. Um velho amigo me recomendou muito a terapeuta dele, então telefonei, marquei, fui. Que diferença! Essa nova é uma japonesa miudinha, sorridente, que fala pelos cotovelos.   Ao final da primeira sessão, ela se despediu dizendo:

— Se você resolver continuar mesmo, semana que vem eu quero que você me traga sonhos.

Fiquei olhando para ela durante dois segundos. Por um instante, achei que ela estivesse me pedindo para passar na padaria e comprar sonhos pra ela. Achei que era muita cara-de-pau, então refiz os cálculos e concluí que ela estava falando de sonhos mesmo. Contei isso, ela riu. Pessoas que riem são legais.

Amanhã é a terceira sessão com a japa. Ela escuta o que eu falo, parece que entende e diz coisas que fazem sentido. É quase como se eu tivesse, sei lá… amigos.

(Ai, gente, tô dramática)

Então é isso: estou tomando antidepressivos, fazendo terapia e gostando. Só falta agora comprar um iPhone, começar a me interessar por rapazes e pronto: estou enturmado aí com a geração de vocês (Y, Z, N… sei lá que letra que vocês são agora).

 

 

 

 

O Palhaço

Como vocês sabem, perdi muita gente ano passado. Perdi meu pai, minha sogra, meu tio. Não, eu não sou tão distraído assim. Não saio perdendo gente no ônibus. Eles morreram mesmo.

Dias depois da morte da minha sogra, eu estava na produtora do CQC escrevendo piada. Mesma coisa quando meu pai morreu. Meu tio morreu numa segunda-feira; eu passei o dia pensando em piadas e saí da produtora direto para o velório. É minha profissão, vou fazer o quê?

Essa situação toda me fez lembrar de um livro de contos edificantes que eu lia e relia na casa de uma vizinha, a Maria José. Maria José é quase da família, eu entrava na casa dela sem bater palma (poucas casas da rua tinham campainha) e ia direto pra estante. Ela vivia se assustando comigo: entrava na sala e tava lá aquele moleque deitado no tapete da sala com a cara enfiada num livro. Pois bem: um desses contos edificantes contava a história de um palhaço que fazia muito sucesso, toda noite lotava o circo. Um dia a família dele se envolveu num acidente, a mulher e a filha morreram. Na mesma noite ele estava com a cara pintada no picadeiro, e todos concordaram que tinha sido seu melhor desempenho em anos.

Não é que eu concorde com aquele clichê besta, “o palhaço é a figura mais triste do circo”. Duvido que ele seja mais triste que a mulher barbada, por exemplo. O que eu acho é que quem vive de fazer graça o faz muito melhor quando está triste. Pelo menos eu sou assim.

E por que eu estou contando esse leriado todo pra vocês? Porque o pessoal da produtora do Selton Mello me mandou um e-mail perguntando se eu podia divulgar aqui no blog o novo filme dele, “O Palhaço”. Como eu não sei fazer essas coisas sem ter um contexto, fiz esse nariz de cera enorme aí em cima.

Não estou ganhando nada pela divulgação (não que vocês tenham alguma coisa a ver com isso). Achei legal terem lembrado do JMC para isso. Os tempos de glória deste blog, se um dia existiram, já foram para o caralho. Além disso, gosto do Selton Mello. É um bom ator e parece ser uma boa pessoa. Além de divulgar o filme em blogs decadentes, o Selton Mello também fez uma página do filme no Facebook. É ele mesmo quem atualiza. Diz a moça da produtora: “Nesse filme ele coloca em questão a crise existencial que todo mundo passa durante uma etapa da vida e relata isso de uma forma bem leve, doce, quase poética”. O que isso quer dizer? Não faço idéia. O filme, escrito, dirigido e estrelado pelo Seltinho (não perguntem), estréia dia 28 de outubro. Acho que vou assistir. Não só porque gosto do Selton Mello, mas porque gosto de ver o que os cineastas brasileiros andam fazendo com o dinheiro dos meus impostos.

Ai, gente, com eu sou revoltz.

 

 

Maiakóvski é o caralho

(para Rafinha Bastos)

Na primeira noite eles passam a mão na nossa bunda num beco escuro e não dizemos nada.

Na segunda noite, eles já não se escondem: esfregam o pau na nossa orelha, metem-nos cinco dedos no cu, estupram a nossa chinchilla e não dizemos nada.

Até que um dia o mais cuzão de todos entra sozinho na nossa casa já de rola na mão, come o nosso rabo, arrebenta as nossas pregas, goza na nossa cara e, conhecendo nosso medo, limpa o caralho naquele pano de prato que tem o Salmo 23 bordado.

Mas a essa altura a gente já tava gostando e só consegue dizer: “Ô… Me liga?”

Será?

E aí, tudo bem com vocês?

Seguinte: tô sem a menor vontade de continuar o Velho Testamento. Depois de II Reis vêm os dois livros de Crônicas, que são bem chatos e repetem boa parte das histórias que eu já contei aqui. E aí vêm os livros de Esdras, Neemias e Ester, que são legais, e o livro de Jó, o mais legal de todos. Aí tem os outros livros poéticos (Salmos, Provérbios, Eclesiastes, Cantares de Salomão), que são muito bons mas não dão gancho para sátira (até dão, mas não estou a fim). Depois disso vêm os profetas todos, que me dão uma preguiça danada.

Então estou pensando em ir direto para os Evangelhos e contar a vida de Jesus Cristo. O que vocês acham?

Bela procura um dono

Apresento a vocês a Bela:

Bela, a cadela que escapou por pouco

Bela deve ter uns dez meses de idade. Já está vacinada, castrada, a coisa toda. Quando encontramos Bela pela primeira vez, ela estava na merda, com duas patas na cova e as outras duas no skate. Conto.

Foi numa manhã de sábado. Saí para passear com o Rondeli e vi uma cachorra deitada na calçada, com duas moças paparicando ela. Eu achei que elas fossem um casal de lésbicas e que a cachorra fosse delas. Continuei meu caminho, então. Um pouco mais adiante, Rondeli parou para farejar um pedaço de salsicha no chão. Puxei ele de volta e seguimos andando.

Quando voltamos do passeio, minha cunhada veterinária havia se juntado às moças. Não eram um casal: uma tinha parado para acudir a cachorra, a outra passou depois e também parou. A cachorra estava mal, perguntaram se havia um veterinário por perto e, para sorte de Bela, minha cunhada estava a duas casas de distância. Com a ajuda das duas moças, a cunhada conseguiu levar a cachorrinha até a casa dela. O bicho estava zoado: diarréia, vômito, tremedeira. Pior: estava cega. Minha cunhada deduziu que era um caso de envenenamento, o que logo me fez pensar no pedaço de salsicha que eu não deixei o Rondeli comer. Então a cachorra foi medicada e dias depois estava bem, andando, enxergando e controlando as funções corporais normalmente.

Agora a Bela está em um pet shop de Santana esperando alguém disposto a adotá-la. Já saí para passear com ela, e é uma cachorra obediente, calma e muito inteligente. Não é lá essas belezas, é verdade, mas pelo menos não é tão feia como o Rondeli.

Se alguém se interessar (ou conhecer quem se interesse), pode falar comigo nos comentários deste post ou pelo formulário de contato do blog. Mais fotos da Bela para amolecer seu coração de pedra:

 

 

O encantador de cães e o pinto do touro

Depois de adotar um cachorro, a maior preocupação minha e de Ana Cartola foi encontrar um adulto responsável que cuidasse dele. Não encontramos ninguém disposto a fazer isso de graça, então decidimos buscar ajuda especializada. Baixamos a primeira temporada do Encantador de Cães e compramos livros desse cara e do Alexandre Rossi, o Dr. Pet. Vimos dois episódios da série, Ana Cartola começou a ler o livro do Dr. Pet e eu peguei o livro de Cesar Millan, o Fabio Puentes do mundo canino.

Logo percebemos a diferença básica. O livro do Dr. Pet se baseia em recompensas e punições. Nada de bater ou castigar o cachorro, só coisas para desencorajar certos comportamentos. Por exemplo: se seu cachorro arranca as roupas do varal quando você não está em casa, você pode colocar biribinhas (ou estalinhos, como dizem as pessoas sem cultura) sobre os prendedores de roupa. O cachorro puxa a roupa, começa a estourar biribinha pra todo lado, ele acha que Deus tá castigando e pronto. O Dr. Pet também ensina a fazer brinquedos caseiros, como esse aqui:

 

Ah, mas o livro do Encantador de Cães é outra pegada. Cesar Millan passaria tranqüilamente por imigrante ilegal, não fosse o botox:

"Dorme, dorme, dormedormedorme..."

Ele tem cara de picareta e é picareta mesmo. Quase tudo que ele diz se baseia na sua “energia” e na “energia” do cachorro. Você precisa transmitir o tempo todo uma “energia calma-assertiva” para que o cachorro entre num modo de “energia calma-submissiva”. Se você não quer que o cachorro passe por um determinado lugar, você cria uma parede invisível com a sua energia para bloquear a passagem. Se você não quer que o bicho pegue um objeto, você toma posse desse objeto usando a sua energia. Ele diz que a multidão de cães abandonados será a grande responsável por aumentar o karma ruim da nossa espécie. Péssimas energias. Dá vontade de ligar o cu dele no 220, pra ele ver o que é energia.

Mas nem tudo que ele fala é bullshit (algumas são bulldick; já falo disso). Nas poucas vezes em que ele resolve ser específico, dá dicas muito boas de como se comportar perto do cachorro para não criar um bicho ansioso, doido e mal humorado dentro de casa (basta eu). Ele recomenda chamar a atenção do cão usando primeiro o sentido mais aguçado dele, que é o olfato. A seqüência nariz-olhos-orelhas funciona bem: olfato primeiro, depois visão e audição por último. E é aí que chegamos ao bully stick, que é a razão de ser deste post.

Desde o começo do livro ele fala no tal bully stick, um tipo de petisco que ele carrega pra todo lugar que vai. Achei que fosse um ossinho, essas coisas, mas ele explica logo de cara: o bully stick é um pênis de touro desidratado. (Não, os caras não vão atrás de touros desidratados para cortar o pau deles. É o pênis que é desidratado depois de cortado. Prestem atenção.)

A cara de Cesar Millan não engana, ele curte mesmo um pinto. E quase toda página do livro há uma referência ao bully stick. Ele usa o pinto de boi para atrair a atenção dos cães pelo olfato, para conduzi-los, para acalmá-los. Gostei da idéia e resolvi experimentar o pinto. Procurei no Google, não achei nenhuma referência ao tal negócio aqui no Brasil. “Ainda não somos evoluídos e seguros a ponto de oferecer caralho seco aos nossos cães”, pensei eu. Ou então, pensei em seguida, talvez o negócio tivesse outro nome aqui, um eufemismo ainda mais obscuro. Como a internet não me ajudava a achar o produto, pedi ajuda a Ana Cartola. Ela ia à Cobasi mesmo, podia procurar o tal negócio lá.

Duvidei que ela fosse encontrar bully stick na loja. Eu já tinha pesquisado tanto e não tinha nem pista de onde comprar o bagulho no Brasil. Então me surpreendi quando recebi um SMS: “Adivinha o que eu achei aqui? VERGALHO BOVINO!” Em vez de inventar um jeitinho simpático para nomear o produto, os brasileiros resolveram chamar o negócio pelo nome mesmo. Fiquei espantado por minha esposa ter encontrado o que eu tinha procurado tanto e sem sucesso. Depois raciocinei: se ela consegue achar o meu, não vai achar o do touro, que é grandão?

À noite ela chegou em casa e demos o vergalho bovino para o Rondeli. Ainda não tinha visto ele tão enlouquecido com um brinquedo novo. Ele pegou o petisco, levou para um canto e passou a nos ignorar completamente; fomos dormir e ele nem ligou. Rondeli passou a noite inteira com o pinto na boca. Já pode trabalhar na televisão.

Arte mágica

Sonhei que estava numa aula de pintura, com uma tela em branco na minha frente. O professor (que eu não via) dizia:

— Podem começar. Se vocês ainda não tiveram nenhuma aula de técnica, deixem o pincel correr movido pela magia negra.

Vou ali comprar material de pintura.

Eles estão de volta

Alguns comentários e e-mails que recebi esta semana:

“Marco vc até que tem talento em narrativa popular. só que se vc usasse mais um pouco de termo e reverencia ao decreve-la por se tratar da bíblia sagrada, eu daria até uma boa nota, porem te avaliu como ’0′ pelas inumera blasfémias”

“CAROS IRMAOS EM CRISTO. AS COISAS DE DEUS É COISA SERIA, NAO É PARA FICAR INTERPRETANDO A BIBLIA COM SARRISMO, TIPO:O que eu faço, Eliseu? — perguntou o rei — Mato os felasdaputa? QUE EU SAIBA A INTERPRETACAO DESCRITA NA BIBLIA NAO É ASSIM, COM PALAVRAS PEJORATIVAS. APOCALIPSE CAP 22. VERSUS 19 ( VEJA O QUE ESTA RESERVADO SE VC NAO SE ARREPENDER, E VOLTAR AS PRIMEIRAS OBRAS E LEVAR AS COISAS DE DEUS MAIS A SERIO.”

“Bem…. se uma mula foi utilizada para mostrar algo a Balaão… creio que….. com um pouco de paciencia poderei entender o que vc tenta mostrar de uma forma sacana a mensagem que deveria ser levada a sério, sou a favor de uma mensagem com um pouco de humor, mas me diga, pra que palavras de baixo calão. MAS SAIBA VC É UMA BENÇÃO. E VC SABE DISSO.”

“vcs são patéticos!!!!!”

Estou sem ânimo, disposição nem senso de humor pra responder a essa gente. Mas é bom saber que estamos voltando à normalidade por aqui.