Category: Pitacos

Alguns mortos dão mais ibope que outros

É engraçado. Um ciclista morre atropelado, todo mundo se revolta. 50 mil pessoas são assassinadas no Brasil todo ano e ninguém fala nada. Será porque a maior parte desses 50 mil é de moleques meio pretos que moram lá na casa do caralho? Não, claro que não. Você sabe como é a periferia, sabe como é a vida, está fazendo sua parte para mudar o mundo. Você aprendeu tudo ouvindo o Criolo. Você usava sacolas retornáveis muito antes de tirarem as sacolinhas de plástico do mercado, é um hipster da ecobag! Você vai trabalhar de bicicleta!

Talvez esteja aí a solução: vamos incentivar o uso da bicicleta na periferia. Vamos estimular o cara sair lá do Capão Redondo ou de São Miguel Paulista e andar 30, 40, 60 quilômetros por dia de bicicleta até o trabalho. É isso que vocês querem, não é? Todo mundo indo trabalhar de bicicleta. E assim quando matarem um moleque desses com um tiro na cabeça, vocês não vão mais ignorar. Mataram um ciclista! Não podemos aceitar!

Quem sabe, né?

De volta às trevas

Em fevereiro deste ano, o Google resolveu inventar moda de novo. A Gringolândia tem lá seu plano nacional de banda larga. O Google resolveu palpitar nesse plano de um jeito bem legal: vai construir e testar uma rede de fibra óptica em algumas cidades que se inscreveram no projeto. O negócio é levar a fibra até a casa do usuário com banda de 1Gbps, e os provedores de serviço que se virem para decidir o que vão vender. Com tanta banda, dá pra colocar internet muito rápida, televisão, telefonia e o que mais o cara imaginar.

Fibra óptica é das coisas mais legais que já inventaram. Não tem nada de mais: é um tubo de vidro esticado até ficar bem fininho. Com vários tubinhos desses juntos e encapados, faz-se um cabo de fibra óptica. Esse cabo transmite dados na forma de pulsos de luz. É um negócio resistente, relativamente barato, eficiente. E serve para levar dados de um lado para outro.

Aqui no Brasil a gente demorou para conhecer as maravilhas da fibra óptica. Até o meio da década de 90, as telecomunicações estavam nas mãos gordurentas do Estado. Eu era estagiário da Telesp em 1993 e entrei numa central telefônica uma vez. Ficava no subsolo e você tinha de usar um protetor de orelha para entrar lá. A central chaveava todas as ligações dos bairros do Ipiranga, Liberdade, Cambuci e outros que não lembro mais. Cada ligação feita nesses bairros chegava à central por fios de cobre e fazia aquele tec-tec-tec de telefone de disco. Coisa da Idade das Trevas do estatismo, do Sistema Telebrás que vocês, jovens, tiveram a sorte de não conhecer.

Veio a privatização, hoje tem fibra óptica por todo canto. Só que as empresas são malandras: vendem pra gente pacotes de internet + TV por assinatura + telefone como se fossem necessariamente três coisas diferentes. Pois não são, ué. Tudo isso é informação. Com largura de banda suficiente, dá pra trafegar esses bits todos na mesma fibra óptica e vender como uma coisa só.

Daí vai que o governo brasileiro anunciou agora o Plano Nacional de Banda Larga. E quem foi que apareceu aí no meio? A Telebrás, que era a guardiã da Idade das Trevas, e que todo mundo achava que já tinha morrido. Eu achava também. Até o final de 2008, quando o povo da redação da revista onde eu trabalhava  descobriu uma alta absurda nas ações da Telebrás. Não conseguimos levantar nada na época. Parece que essas ações já subiram 22.000% desde que o Lula assumiu; quem tinha mil reais em ações da Telebrás na época pode vender tudo por 220 mil hoje e comprar uma casa. E agora ficou claro o porquê: segundo o tal plano, é a Telebrás que vai coordenar o negócio todo.

O governo diz que quer levar banda larga pra todo mundo, quadruplicar o acesso até 2014. Acontece que fibra óptica é que nem partido político: aceita qualquer coisa. Uma rede estatal de telecomunicações espalhada pelo Brasil com preço subsidiado. Sei não, sei não… Nada impede serviços de voz e TV por assinatura de trafegar por essa rede. O ministro do Planejamento, Paulo Bernardo, está todo empolgadinho com o projeto. Vi ele falando hoje na televisão; só faltou revirar os olhinhos. E falou um troço interessante hoje: “se a iniciativa privada tiver condição de fazer a última milha e fizer isso bem conectado com o nosso plano, com os incentivos do governo, ótimo. Se não fizer, nós vamos dar um jeito de fazer”. Olha aí o pensamento da Idade das Trevas.

Dia desses o Lula falou a mesma coisa da hidrelétrica de Belo Monte: “se as empreiteiras não fizerem, eu faço”, ou algo assim. A cada dia que passa, sinto mais forte um cheiro de repartição pública no ar, um futum de naftalina. É o Estado botando as manguinhas de fora, e não tem um Google que venha nos salvar.

Vou pedir asilo

É isso mesmo: vou pedir asilo pro Tio Sam e quero ver não me darem. Explico:

Vocês já devem ter lido por aí (se não leram, tem a notícia da Folha só para assinantes aqui e reproduzida aqui): um rapaz de Minas Gerais pediu asilo nos Estados Unidos porque sofre perseguição no Brasil por ser gay. Muito bem. A justiça americana dá brecha (epa) para gays perseguidos mundo afora pedirem asilo por lá. Acho muito certo. Imagino a merda que deve ser a vida de um gay — pior ainda, de uma lésbica — num país muçulmano, por exemplo.

Não é o caso do Brasil. Moro no meio do reduto gay, vejo a bicharada espevitada todo dia na rua. Então não vejo essa perseguição aos gays, mas também não sei da missa a metade. O sujeito lá de Minas é gay, se sente perseguido, foi pedir asilo na gringa, aceitaram. Ponto pra ele.

Palmas pra ele!

Só que aí tem um negócio: diz que a primeira vez que ele sofreu discriminação foi quando recebeu uma repreensão verbal da polícia no Largo do Arouche.

Peraí.

Índio Caçador, ícone do Arouche

Eu moro no Largo do Arouche, já trabalhei no Largo do Arouche, conheço o Largo do Arouche há anos (e não adianta o Arouche dizer que não — *rimshot*). EU sofro discriminação no Largo do Arouche. EU é que sou estranho por lá, passando de mãos dadas com minha marida do sexo oposto. Os policiais daquele posto nem têm como discriminar os gays, pelo simples fato de que são milhares de gays passando por lá o tempo todo. Fora isso, dizer que é perseguido porque levou uma repreensão verbal dos puliça é muita veadagem.

Mas quem sou eu para dizer alguma coisa, né? O negócio é procurar uma fonte confiável nesses assuntos. E quem melhor do que o Grupo Gay da Bahia? Segundo o site deles, o GGB é  “… a mais antiga associação de defesa dos direitos humanos dos homossexuais no Brasil”. Os caras são respeitados, então a defesa do gayzim mineiro usou dados do GGB para respaldar o pedido de asilo. Segundo eles, o Brasil é um país perigoso porque foram mortos 2.998 homossexuais em — olha só! — 29 anos.

Peraí de novo. Vamos fazer continhas.

Segundo o Mapa da Violência nos Municípios Brasileiros, do Ministério da Saúde, quase 50 mil pessoas são assassinadas por ano no Brasil. Para ser mais exato, a média entre 2000 e 2006 foi de 48.173 homicídios por ano. Vamos considerar 48 mil por ano, então.  Lembrando: segundo o GGB, foram 2.998 gays mortos em 29 anos — 103 por ano.

Estão acompanhando até aqui? Então. Segundo o próprio GGB (aqui, em artigo assinado por Luiz Mott, presidente do grupo) os homossexuais são 10% da população brasileira. De cada 10 brasileiros, um é gay. E aí vem a distorção: quando se fala de homicídios, essa proporção aí é de 467 para 1. Ué. Nem é tão perigoso ser gay no Brasil. Perigoso mesmo é nascer aqui — gay ou não.

Vou pedir asilo nos EUA dizendo que o Brasil não é seguro para os gordos (ou carecas, ou encardidos). Quero ver quem é que me contesta.

Deixa de ser amargo, velho feladaputa

Hoje, em piulas:

  • Minha sobrinha inventou de jogar joquempô hoje. Durou pouco. Joguei tesoura, ela também. Joguei papel, ela fez um arco com os bracinhos e gritou: “BURACO NEGRO! GANHEI!” Por mais que eu pensasse, não consegui achar nada que vencesse o buraco negro.
  • Eu estava tentando pensar em um texto em que eu usasse a expressão “um lote de bauxita” como tradução de “a lot of bullshit”. Quando inventei, me pareceu genial. Aí falei em voz alta e vi que não tinha graça nenhuma. Fiquei triste.
  • Sabe aquelas piadas que começam falando em “droga”, dando a entender que se trata de substância entorpecente, mas na verdade se trata de uma banda, um time de futebol, um político etc? Tipo: “Resolvi parar com as drogas. Comecei dando ao porteiro minha camisa do Corinthians”. Sabe? Então. O negócio da piada é ter uma virada surpreendente. Essas piadas não surpreendem mais ninguém. Já eram velhas no tempo do Barão de Itararé.
  • Falando nisso, não agüento mais piada com a Preta Gil e o Rubens Barrichello.
  • Eu queria ouvir, ler e ver mais piadas ofensivas. Piadas racistas, piadas com aleijado, piadas com religião. Quando dizem “com isso não se brinca” é porque o assunto oferece muito material pra quem quiser fazer graça. Além do mais, quem fala “com isso não se brinca” é sempre profundamente babaca. Repare.
  • O título deste post tem nada a ver com o conteúdo.

A mão peluda do Estado bolinando os negócios particulares

Corre, pega a estaca!
Corre, pega a estaca!

Todo mundo achando linda essa lei que proíbe o fumo em ambientes fechados. Eu não fumo, então poderia não dar a mínima pro assunto. Mas o caso é que não gosto de ver o Estado se metendo na vida das pessoas. O Estado que cuide do que é público: do que acontece na minha casa, cuido eu. No meu bar. Na minha empresa. Se eu resolver fumar, minha marida vai me mandar fumar na rua. E eu vou acatar, que não sou besta. Esse acordo vale para todos os lugares. Numa empresa:

— O que vocês acham, os funcionários devem fumar dentro da empresa ou não? Não? Então o que acham da gente reservar aquela sacada ali como fumódromo? Legal? Então pronto.

Eu trabalhei numa empresa que ocupava dois prédios de 20 andares. Havia uma área para fumantes no térreo e outra no 16º andar. Os que fumavam (eu fumava, na época) tinham que ir para uma dessas áreas quando queriam pitar um bocadim. No 16º tinha até uma lanchonete onde era permitido fumar — quem não tolerava fumaça podia ir a uma das outras lanchonetes do prédio, ué. Só que a lei do Serra proíbe os fumódromos, claro, e tira das pessoas o direito de decidir se vão tolerar ou não o cigarro, e em que nível.

Se o tabaco não é droga ilícita, então as pessoas devem decidir onde seu uso é tolerado ou não. A nova lei trata as pessoas como débeis mentais, e elas aceitam esse papel de bom grado. E se eu quiser abrir um bar só para fumantes? Por que o dono do bar não pode decidir se é permitido fumar lá no bar dele? Ou se é permitido só numa área? Quem achar ruim, que não vá ao bar dele. Outro dono de bar vai proibir o cigarro. Fumantes que achem outro lugar pra ir dar suas baforadas. Outro vai permitir o fumo totalmente e vender maços de Marlboro a dez reais pra encher o cu de dinheiro. O bar é dele, o cu é dele, o dinheiro também será.

Mas nãaaaaaaaao. O negócio é estimular o dedurismo (tem um 0800 pros dedos de seta), é jogar as pessoas umas contra as outras, é gastar dinheiro público pra fazer propaganda dessa lei tão legal. Tem até uma ampulheta, e eu imagino que começou a juntar gente em volta às onze da noite, tudo de ancinho e tocha na mão pra sair caçando fumante à meia-noite — sendo que há um ser muito mais perigoso à solta. Zé Serra quer proibir coxinha nas escolas, quer proibir quentão em festa junina, quer proibir cigarro nos bares. Daqui a pouco ele proíbe água benta na igreja e todo mundo vai achar bonito.

Free Danilo Gentili

Eu lembro de ter devorado numa tarde em 1988 o livro 1000 Piadas do Brasil, de Laerte Sarrumor. O livro era do vizinho, que participava do Clube do Livro só pra eu ter o que ler. Tinha piada de todo tipo: piada suja, piada infame, piada política, piada racista. Lembro de uma que me faz rir até hoje. Depois de enfileirar meia dúzia de piadas racistas, o autor fazia uma pausa pra dizer algo como:

Quero deixar uma coisa bem clara: são só piadas, ok? Eu não sou racista. Vários amigos meus têm sangue de preto…

… no pára-choque do carro.

Em 1988, ainda era possível fazer esse tipo de piada. Lembram do Didi chamando o Mussum de grande pássaro? E do Mussum chamando o Didi de paraibinha cabeça-chata? Pois é. Bons tempos. Agora não pode mais, né? O Danilo Gentili que o diga.

Danilo Gentili é dos caras mais esquisitos que eu conheço. É alto, branco, peludo e torto. Anda com as costas curvadas, as pernas meio dobradas, os braços longos demais balançando ao lado do corpo. Parece um macaco. Aí ontem ele cometeu a temeridade de dizer algo que poderia ter uma interpretação remotamente racista na mente de gente muito doente:

Agora no TeleCine KingKong, um macaco q depois q vai p/ cidade e fica famoso pega 1 loira. Quem ele acha q e? Jogador de futebol?

Notem que ele não diz que o jogador de futebol em questão é preto. O lance todo gira em torno do cara que vai pra cidade, fica famoso, pega uma loira. Pode ser branco. Pode não ser nem uma coisa nem outra, como eu e a maioria desse povo encardido do Brasil de meu Deus.

Ah, mas foi um furdunço. Todo mundo encrespou pra cima do pequeno jacu.  Inventei de entrar na briga do cortiço uma vez ontem:

É foda esse negócio de ficar pisando em ovos, chamar de “afro-descendente”. Ficam tratando os pretos como se fossem retardados…

E outra vez hoje:

Se um negão se invocasse e metesse a mão na fuça do @danilogentili, eu respeitava. E dava risada. Branco querendo tomar as dores, atomanocu.

Mas pra quê! Falaram que era a mesma coisa de dizer que só judeu podia bater em nazista, que só velho podia bater em quem espanca uma velhinha. Como se o Danilo tivesse amarrado um crioulo numa cruz no quintal da casa dele e ateado fogo. Quando meu argumento era que os gays sabem se defender sozinhos, as mulheres sabem se defender sozinhas. E foi bem feito pra mim: um dia eu aprendo que é aqui no blog que eu posso falar o que penso e mandar tomar no cu todo mundo que discordar.

Será coincidência que só piadas de preto, aleijado e retardado negro e deficiente físico e mental afro-descendente e portador de sei-lá-o-quê não sejam aceitáveis? O que esse povo pensa é: japonês, índio e branco é questão de genética. Preto não. Ser preto é tipo uma deficiência. Tadinhos, eles são incapazes, precisamos defendê-los e protegê-los dos brancos malvados. Ainda mais se forem carcamanos caipiras como Danilo Gentili.

Agora o MPF de São Paulo vai decidir se o comentário foi racista. Uma tal Afrobras vai lançar uma carta de repúdio. A palavra “cidadania” deve aparecer pelo menos duas vezes na carta. Essa Afrobras é uma ONG que faz um monte de coisa para “inserção e visibilidade do negro paulista e brasileiro”. Ora, o negro paulista e brasileiro já tem bastante visbilidade. Pelo menos quando a luz está acesa.

Eu sei que eu, mulatinho inzoneiro, posso me declarar negro na inscrição para um vestibular ou concurso que leva essas coisas em conta. E vão aceitar. Então vou me declarar preto aqui para dizer que a piada do Danilo não me ofendeu. Nem a piada do Sarrumor. Nem aquela que diz que na África do Sul do apartheid os pretos eram enterrados de bruços e com a bunda pra fora — pra estacionar bicicleta. Porque eu aprendi há muito tempo que humor não respeita nada. Não respeita mesmo, que se fodam os chatos. Cacildis.

*   *   *

E já tô vendo neguinho se encolhendo cada vez que eu uso o termo “preto”. Fiquem calminhas, santas. O termo é correto. Tirei do formulário do Censo 2000, ó:

Clica pra ampliar, clica.
Clica pra ampliar, clica.

*   *   *

E volto a dizer: se algum negão de verdade se ofender, que bata o pau na mesa. Depois, com a mesa já quebrada, que manifeste sua revolta, de preferência fazendo alguma piada de branco.

E o Sarney, hein?

Estranho. Pelo que dizem os jornais, José Sarney continua na presidência do Senado Federal, todo pimpão em seu jaquetão, escovando e engomando seu bigode como se não houvesse amanhã. Muito estranho. Ninguém mais fala do Sarney no Twitter; isso não devia significar que ele renunciou, ou foi derrubado, ou morreu? Há coisa de duas ou três semanas, só se falava em #forasarney no cortiço. Aí veio a final da Copa das Confederações, todo mundo mandou o Kelso chupar, foi uma festa. Depois o irmão da Sandyjúnior pediu pro Kelso dar uma força no #forasarney. O Kelso disse que tinha porra nenhuma a ver com isso. Alienado feladaputa.

Mas os twitteiros brasileiros não desistiram. Começaram a falar em levar o #forasarney para as ruas.

(A bem da verdade, começaram a falar disso antes, até. Eu apoiei o #forasarney logo no começo, movido pelo meu incontrolável desejo de me juntar à boiada. Mas aí falaram em ir pra rua, o que foi a deixa para que eu desistisse do movimento. Deus me livre e guarde de ir pra Paulista protestar. É inverno, lá é muito alto, bate vento, tem um monte de comunista. Tenho medo.)

Bom, nego se empolgou em sair para protestar. Marcaram um dia de mobilização nacional. Em São Paulo, 50 pessoas pararam a Avenida Paulista, era o Diretas Já! de volta com força total. Na Cinelândia, centro do Rio de Janeiro, 26 pessoas se acotovelavam para derrubar o Sarney. Em Brasília, foi aquele tumulto: bem uns 20 estudantes entraram no Senado para protestar. Em Florianópolis não apareceu ninguém para a manifestação, mas estou certo de que todos os catarinenses de bem estiveram lá em espírito. Enfim, uma manifestação que surgiu no Twitter e parou o Brasil. Não dá para entender como é que o Sarney ainda está lá.

Talvez tenha a ver com as pessoas de um lugar distante chamado Amapá. Essas pessoas votam no Sarney a cada oito anos. Elas devem ter alguma razão para eleger o bigodão. Os revolucionários do Twitter eram todos de São Paulo, do Rio de Janeiro, do Rio Grande do Sul… Ninguém pensou em consultar os caboclo lá do Amapá, entender por que eles votam no sujeito. Devem achar que os amapaenses são tudo gado, que votam no Sarney porque alguém manda. Engraçado ver gente que  elege muito nego mais safado do que o Sarney pensando que só os amapaenses são idiotas.

Gente, que coisa horrível, não?

O povo clama para que eu me manifeste sobre o seqüestro de Santo André. E eu nem sabia que tinham seqüestrado o apóstolo…

Tá, mentira. Ninguém me perguntou nada. Mas digo mesmo assim: consegui passar a semana inteira docemente ignorante sobre o que acontecia num buraco qualquer de uma cidade-dormitório. Outras coisas aconteciam em outros buracos de outras cidades-dormitório, e é claro que não me interessavam. Então por que eu daria atenção a esse caso específico? Só porque a imprensa ficou falando nisso?

Bom, não consegui manter minha total ignorância, infelizmente. Matei aula na sexta-feira porque já sabia qual seria o tema: há anos os professores de jornalismo se desesperam em busca de um assunto diferente dos casos Escola Base e Bar Bodega. Esse novo caso de trapalhada midiática deve ter sido um alívio para eles. Atenção: se você pretende estudar jornalismo algum dia, prepare-se para debater o seqüestro de Santo André à exaustão.

De resto, minhas opiniões permanecem mais ou menos as mesmas desse outro post. E o rato de Green Mile ainda me comove mais.

O outro lado e um mea culpa

Minha amiga Ieda e os leitores Daniel e Rafael me deram um toque sobre a resposta da livraria para a história toda. Vocês podem ler a resposta aqui e aqui. Nessa comunidade do orkut há toda uma discussão sobre o assunto. Na íntegra:

Gostaríamos de esclarecer alguns pontos sobre a acusação feita por Leonardo Cuisse Araújo em carta publicada no DCI de quinta-feira, 8 de maio de 2008, na coluna assinada por Sebastião Nery. Leonardo é funcionário da Livraria Cultura e está afastado desde abril de 2007 por motivos de saúde. Ele iniciou tratamento médico contra um câncer em agosto do ano passado e teve todos os custos cobertos pela seguradora de saúde com a qual a Livraria Cultura mantém contrato desde abril de 2006. Como a quimioterapia oral (uso do medicamento Temodal) prescrita para Leonardo não tinha cobertura do plano de saúde, conforme cláusula contratual, e seu custo era extremamente elevado, a Livraria Cultura decidiu arcar com esta despesa para que Leonardo pudesse seguir seu tratamento adequadamente. A Livraria Cultura pagou a quimioterapia oral de Leonardo por seis meses e, neste período, se ofereceu para pagar os honorários de um advogado para que ele acionasse judicialmente o Estado para receber dele o medicamento. Afinal, este é um direito constitucional de todo cidadão brasileiro. O funcionário não quis acionar o Estado, sem qualquer justificativa. Mas, em março de 2008 a Livraria Cultura descobriu o porquê. Leonardo já havia acionado o Estado e, através de uma tutela antecipada, já tinha assegurado o direito de receber o Temodal gratuitamente. Dessa forma, tornara-se desnecessário o fornecimento do medicamento pela Livraria Cultura, o que era feito por mera liberalidade.

Diferentemente do que o Leonardo afirma, ele continua associado ao referido plano de saúde. A Livraria Cultura também não mudou de plano de saúde, como Leonardo menciona em sua carta. A seguradora apenas trocou a rede credenciada e, inclusive, Leonardo dispõe agora de duas redes de atendimento, a própria da seguradora e uma rede terceirizada com cobertura nacional. Ou seja, Leonardo continua tendo todo seu tratamento pago pela seguradora e ainda tem o direito de receber a medicação prescrita pelo Estado.

A Livraria Cultura é uma empresa idônea e todos os comprovantes necessários para a verificação da veracidade do que afirmamos nesta carta estão disponíveis em nossa sede, como a tutela do Estado e a apólice em vigor de seu plano de saúde. O seguro saúde empresarial contratado pela Livraria Cultura está de acordo com a Lei 9656/98 e cumpre todas as exigências da Agência Nacional de Saúde Suplementar (ANS).

Sem mais,
Livraria Cultura S.A

Ou seja, é possível que eu, tão metido a cético, tenha caído numa armadilha. Pior: posso ter influenciado outros. Por isso, peço desculpas a vocês. A história pode ser verdadeira ou não, mas eu não tinha o direito de publicar só um dos lados. Nada a ver com regras do jornalismo, mesmo porque este não é um blog de jornalista. Por decência mesmo. Agora releiam a história do funcionário, a resposta da livraria, e tirem suas conclusões. Eu, de minha parte, concluo que vou esperar mais desdobramentos e comprar pipoca pra ver a briga.

Argumento de autoridade

Tá, tá. Não adianta tentar mudar conceitos martelados desde a infância. Então achei um site que calcula a melhor opção (financiamento ou compra à vista — sendo que a última opção é para imóveis prontos para morar) de acordo com diversas variáveis. O sistema dá a melhor alternativa e manda um relatório completo por e-mail.

Quanto às simulações do post que causou a celeuma, usei o simulador de financiamento do Banco Real e o de investimento do Itaú.

Divirtam-se.