Category: Périplos

Eu só queria ser um preto limpinho

TOC é uma merda.

A película de proteção do meu celular estava muito suja, então resolvi usar o bicho sem película — que se fodesse. Vai daí que a tela começou a ficar cheia de marcas de dedo e aquilo foi me comendo a alma. Comprei uma película nova o Mercado Livre e, enquanto ela não chega, achei melhor comprar um limpador de LCD; um negócio besta que custa 15 reais e traria paz à minh’alma. Então saí de casa hoje de manhã para ir até a Kalunga.

Cheguei muito perto de entrar na loja. Estava sinalizando para entrar no estacionamento, um cara que estava parado no meio-fio abriu a porta de repente, bati. Lá se foram pára-choque, farol, retrovisor e duas portas amassadas. O cara é motorista de uma transportadora que — vejam! — NÃO TEM SEGURO. Entre conversa, telefonemas e delegacia, quase duas horas para resolver tudo. O motorista assumiu a culpa; o patrão dele ainda não aceitou muito bem.

Amanhã levo o carro para fazer vistoria e depois vou deixá-lo uns dias na oficina. A franquia custa dois mil e setecentos reais. Perdi tempo, vou ficar sem carro, vou gastar minha pouca paciência indo atrás do sujeito pra me pagar, provavelmente vou acabar apelando para uma ação judicial que vai levar sei lá quanto tempo.

E a tela do celular continua cheia de marca de dedo.

Hoje eu fui ao Masp

Há quem pense que eu não ligo pra cultura. Nada mais longe da verdade. Como prova disso, fui ao Masp hoje. O prédio do Museu de Arte Moderna de São Paulo foi inaugurado em 1947 na Avenida Paulista. É famoso por seu vão livre de 74 metros. Nos fins-de-semana, dezenas de pessoas saem de todos os cantos da cidade para se reunir nesse vão livre e praticar uma atividade cultural da maior importância: a troca de figurinhas da Copa do Mundo. Dizem que dentro daquele bloco de concreto que fica em cima do vão tem uns negócio de arte também, mas não sei. Eu fui lá pra trocar figurinha mesmo.

Saí de casa com a missão de encontrar as 76 figurinhas que me faltavam e reduzir o bolo de 130 repetidas. Marquei com uma amiga japonesa (amigas japonesas são indispensáveis nessas ocasiões) e fui para lá meio avexado: não queria parecer muito nerd. Cheguei ao vão do Masp, encontrei a japa e uma multidão. Sentada no chão, a japa já trocava suas figurinhas com uma dupla de rapazes. Logo uma moça juntou-se ao grupo. Depois de cinco minutos sentado no chão, parei de sentir o pé direito. Mas pelo menos não estava mais constrangido, e mais ainda ao ver um outro grupo que tinha ido lá para brincar com espadas de isopor e papelão. Eram adolescentes e levavam muito a sério seus duelos. Olhando para eles, vi que eu não era nada nerd.

(Só depois pensei que eles devem ter olhado para mim, um gordo careca de 35 anos trocando figurinhas numa tarde de sábado, e pensado a mesma coisa.)

A japonesa precisou ir embora logo, então fiquei entregue à minha própria sorte. Me levantei e fui até a mureta para sentar direito e marcar as figurinhas que já tinha trocado. Depois disso, percebi que nem precisava procurar muito. Era só segurar o bolinho de figurinhas na mão, olhar em volta e esperar. Logo alguém vinha, “Tem figurinha pra trocar?”, e começava mais uma negociação. Vi todo tipo de gente. Um garoto de seus 4 ou 5 anos pegou com o pai a pilha com umas 300 figurinhas repetidas e começou a me mostrar uma por uma.

— Cê tem essa? — e me mostrava a foto do jogador.

— Sei lá! Deixa eu ver o número… Hum… Já tenho.

— E essa?

— Xeu ver… Já tenho

E ficamos nisso por um bom tempo, até ele me mostrar uma que eu não tinha. O pai, muito jovem, se desesperava ao ver o moleque tirar as figurinhas da ordem numérica. No final, pai e filho ficaram com quatro figurinhas minhas e eu peguei quatro deles. Antes de terminar, outros já esperavam do lado para negociar também. Um senhor de uns 65 a 70 anos de idade veio com a esposa e dois bolinhos de figurinhas. Um era do neto, eu acho. O outro era do casal. “Essa aí é do nosso ou do fulano?” Vi um rapaz magrinho sentado num canto e fui ver o que ele tinha. Era muito arredio, não me deixou tocar nas figurinhas dele: em vez disso, me pediu para ler os números que ainda não tinha. Ele tinha quatro figurinhas de que eu precisava. Agradeci e estendi a mão para cumprimentá-lo. Ele estranhou, eu acho.

Conforme fui trocando as figurinhas, foi ficando mais difícil achar as que faltavam. Começou a chover, e um pessoal chegou para montar as barracas da feirinha do Masp. Saí, fui jantar, depois vim pra casa. Agora só me faltam seis figurinhas. Aliás, se alguém as tiver e quiser trocar com alguma das minhas repetidas, dê uma olhada e me avise. As que me faltam:

85 – 144 – 201 – 315 – 403 – 583

Vou ver se no próximo sábado eu vou a outro encontro de troca de figurinhas. Talvez não no Masp. Estou muito velho para ficar horas sentado no chão, em muretas e outros lugares desconfortáveis. Há quem diga que eu estou muito velho pra colecionar figurinha também, mas eu quero é que se foda.

*   *   *

No meio dessa zona toda, encontrei um leitor do blog, Emanuel. Disse que lia o JMC desde o tempo em que ele era preto e vermelho amarelo (o blog, não o Emanuel). Os leitores deste blog freqüentam os piores lugares, credo.

Meta

2009 foi o ano em que cheguei mais perto do meu objetivo.

Sim, eu tenho um objetivo. Não parece, eu sei, mas tenho. Há muitos anos. Quando comecei a trabalhar, há quase 18 anos, já tinha esse objetivo em mente. Fui estagiário de estatais, “menino da informática” em colégio de padres e loja de móveis, suporte técnico em empresas obscuras, programador Clipper em uma financeira. Fiz suporte técnico em uma multinacional de software (foi nessa época que criei este blog, também pensando no futuro) e especialista em segurança da informação numa grande consultoria. Larguei tudo, virei jornalista de tecnologia. Mas ainda não era meu objetivo: era apenas um passo na direção certa. Meu objetivo exigia presença na mídia, contatos, e a vida de jornalista me deu isso. Fiquei no jornalismo de tecnologia por quatro anos, trabalhei para três editoras.

Então, quando eu já me preparava para dar o próximo passo rumo ao meu objetivo, a sorte me apareceu na forma de um convite de Mestre Palito (não perguntem) para ser roteirista do CQC. Aceitei, é lógico. Agora estou em posição privilegiada, e certo de que 2010 será um ano de outras conquistas no rumo certo. Nunca estive tão próximo do meu objetivo, do sonho de uma vida, da meta traçada com tanto cuidado por tantos anos. Há quem diga ser impossível, há quem ria, mas eu sei que vou conseguir. Com muito trabalho, dedicação e treino, atingirei meu objetivo: ser dançarina do Faustão.

Que 2010 seja um ano de conquistas para todos vocês também.

Teor de gelamento

Fui ver Avatar na quarta-feira. É só uma xaropada ambientalista, e nem toda a tecnologia do mundo basta para compensar tanto clichê. Então nem vou falar do filme. Em vez disso, conto uma cena que aconteceu no cinema.

O Marabá reabriu, então agora eu e a marida temos um cinema — multiplex com sala 3D e tudo mais — a poucos metros de casa. Fomos até lá; tinha fila, coisa rara em cinemas de rua e mais rara ainda no centro de São Paulo. Mas compramos nossos ingressos, entramos na sala, pegamos nossos óculos 3D e eu saí para comprar água. Tinha fila também, e andava devagar. O rapazinho do balcão, coitado, tinha que fazer tudo ao mesmo tempo: atender, servir e cobrar. Na minha frente, várias bichinhas pagando qualquer dôrreal com cartão de débito — o que tornava o atendimento mais lento ainda. Com tudo isso, um sujeito ainda resolveu decidir o que queria só quando chegou sua vez de ser atendido. Meio na dúvida, olhou para a máquina de refrigerantes:

— Qual está mais gelado?

“Tudo igual”, poderia responder o rapazinho do balcão. Mas não. Nããão. Ele é um profissional de atendimento ao público e, como tal, não pode se limitar aos recursos mais básicos da linguagem. Claro que não. Ele pensou por um instante e respondeu:

— Todos têm o mesmo teor de gelamento, senhor.

TEOR DE GELAMENTO!

Eu precisava compartilhar isso com vocês. Feliz Natal.

Revelação

Hoje eu tive uma revelação. Saí do trabalho meio cedo, não podia pegar o carro por causa do rodízio e resolvi passar no Pão de Açúcar. Pensei que um passeio no bondinho seria um bom final de expediente, até perceber que estava em São Paulo. Então fui ao supermercado de mesmo nome.

(Esqueçam que eu escrevi isso.)

Estava chegando ao supermercado e vi um véio na porta — “véio” e “velho” são duas coisas muito diferentes, notem. Bom, primeiro eu ouvi o véio. Ele estava gritando alguma coisa lá em veiês. Olhei na porta do supermercado e lá estava o véio, nervoso, gesticulando que só italiano de novela, berrando, três seguranças atrás dele. Ele ameaçava entrar de volta, os seguranças tentavam acalmá-lo. Ele pegou uma garrafa de guaraná e ameaçou jogar em alguém lá dentro. Uma garrafa de plástico, o idiota.

Era um véio com pinta de taxista: camisa branca aberta, calça de tergal, chaveiro no cinto, pulseira de ouro. “Respeita o idoso!”, ele gritava. “Perguntou a minha idade!”, gritava em seguida. “A minha idade! Que que é isso?!”. Parecia aquelas jam sessions em que o cara fica horas improvisando em cima de um tema, aí erra uma nota e finge que é um tema novo, improvisa mais dois meses em cima disso, depois volta pro tema antigo, depois inventa lá um terceiro, volta pro segundo. “Respeita o idoso! Perguntou a minha idade!”, ele repetia. E depois de um tempo: “se eu andasse armado, dava um tiro na cara dele!”. As acusações e ameaças eram dirigidas a um cara que estava no caixa preferencial para velhos, grávidas, aleijados, crioulos com anões no colo e coisa e tal. O cara fazia que ia partir pra cima do véio, a mulher do cara o continha, pedia pelamordedeus. “PERGUNTOU A MINHA IDADE! A MINHA IDADE!!!”

Aquilo estava ficando chato, então fui comprar um sanduíche. No balcão, duas senhoras tomavam café e tentavam descobrir o que se passava com o véio. E foi aí que tive a tal revelação do começo do post, que vocês achavam que eu já tinha esquecido.

O véio continuava falando da idade, que o outro tinha perguntado a idade dele, que tinha encostado nele e perguntado “qual a sua idade?”, nhenhenhém.

— O que será que aconteceu? — perguntou uma das senhoras do balcão; uma pergunta dirigida a ninguém em particular.

— O véio na verdade é uma véia — eu respondi. — É uma mulher. Por isso se ofendeu tanto.

O comentário fazia sentido dentro da minha cabeça, mas assim que saiu ao mundo virou uma coisa esquisita, toda torta. Silêncio das duas. “Perguntou a minha idade! Dou um tiro na cara dele!”, continuava o véio.

— Porque não é de bom tom perguntar a idade de uma senhora — tentei explicar.

As duas me olharam com aquela cara de do-que-que-esse-sujeito-tá-falando. Não conhece essa cara? Você não sabe o quanto é feliz.

As pessoas me olham o tempo todo com essa cara de do-que-que-esse-sujeito-tá-falando. Desde sempre. Acho que é porque eu falo as coisas que eu penso como se as pessoas estivessem dentro da minha cabeça (elas bem que cabem) e soubessem que diabo eu estou pensando o tempo todo. Elas não sabem, então me ignoram e seguem suas vidas. Ou então fazem a pergunta que eu mais ouço na vida: “que que isso tem a ver?”. Tento explicar minha linha de raciocínio, adianta nada. É desesperador.

A revelação me veio quando eu me coloquei por um momento no lugar daquelas duas senhoras. Olhei para mim mesmo assim, de fora, e fiquei chocado. Deve ser por isso, eu pensei, que as pessoas não vão muito com a minha cara quando me conhecem. Tenho vários amigos, bons amigos, mas eles custaram a gostar de mim. “Eu não te suportava quando a gente se conheceu” é outra frase que eu ouço muito. Não é pra menos: eu pareço arrogante, ando de cara fechada e, coisa horrorosa, falo coisas sem propósito. Tem gente que eu conheço há vinte anos e ainda não vai com a minha cara. Não sei se são meus inimigos ou se essa primeira impressão é difícil mesmo de superar.

Enquanto eu pagava o sanduíche (as orelhas queimando), as duas continuavam quietas. Duzentos anos depois, uma delas comentou:

— Gente, então é uma mulher?

— Não, porra!

Mentira, eu não falei “porra”. Mas o “não” foi bem seco mesmo. Tá, as pessoas não gostam de mim. Mas também não se esforçam muito pra eu gostar delas. Que se fodam.

Carro de satã

Eu sempre odiei aquela banheira sobre rodas impulsionada pelo hálito de Belzebu que é o Corcel II. Nunca tive nenhum motivo concreto para detestar isso que chamam de carro. Meu pai não teve uma carroça dessas, nem fui atropelado por uma delas quando criança. Meu contato mais próximo com a banheira foi uma vez em que eu, meu irmão, Risadinha e Zezinho pegamos carona num Corcel II. Eu estava resfriado, o banco do motorista estava rasgado e o Zezinho aproveitou para estofar o banco com toneladas de lenços de papel ranhentos. Nenhum motivo aí para odiar o carro, só para achá-lo ridículo — o que é inevitável.

Destino merecido
Destino merecido

Pois bem: voltando da casa de meus pais há duas semanas, fui entrar à esquerda numa rua de mão única. Um sujeito vinha subindo na contramão todo apagado e bateu na lateral do porta-malas do meu Corsinha sofrido. Eu gritei “ô!”, encostei na guia, liguei o pisca-alerta e só tive tempo de ver a rabeira do maldito Corcel II azul sumindo. Fui até a esquina, ele já tinha ido embora. Fiquei lá parado, abrindo os braços e falando “Ô. Feladaputa. Ô.” Voltei pro carro, vi o estrago (um amassadão, pára-choque meio caído, friso do pára-lama também) e fui dar uma volta pelas redondezas. Não sei pra quê. Se eu achasse o cara, ia fazer porra nenhuma. Então fui embora.

Com o estrago feito, o negócio era procurar o conserto mais barato. No primeiro lugar que eu levei o carro, fizeram um orçamento de 800 reais. 800 reais! Não é à toa que o cara bateu e fugiu: se ele tivesse 800 reais sobrando, comprava uma frota de Corcel II.

Corno.

Continuei pesquisando. Os caras olhavam a cagada, retorciam a boca, coçavam a cabeça, passavam a mão pela lataria e mandavam a cacetada: 750 reais aqui, 950 ali. 600 reais foi o preço mais baixo que eu achei. Já ia fechando com o sujeito quando meu pai me lembrou do Seu Mello.

Seu Mello arrumou as barbeiragens que eu fiz no Corsa quando estava tentando aprender a dirigir (depois de um tempo, desisti de tentar). Faz um serviço bom, mas é impossível conversar com ele. Fala aos soquinhos: duas sílabas inaudíveis, uma sílaba berrada. No fim das contas, você entende um terço do que ele fala e se vira pra deduzir o resto. Mas o serviço é bom, como eu disse, então me armei de paciência e fui até a oficina. Seu Mello olhou o estrago, ficou passando a mão pela lataria (deve ser fetiche de funileiro, sei lá) e falou:

— …car …peça …-choque …nhentos …ais.

— Quanto?

— …centos …ais.

— Trezentos e cinqüenta?

— …tenta.

— Trezentos e setenta em duas vezes?

— Tá bom.

Precinho camarada, do Seu Mello. Se alguém quiser, dou o endereço. E espero que o corno leproso dono do Corcel II azul-suvinil responsável por essa merda toda tenha seu cu incendiado no dia da greve dos bombeiros. Amém.

Telefônica, a espanholinha safada

Eu cheguei ao fundo do poço: estou exilado numa lan house. Ao meu lado, um sujeio espinhento, de cabelo seboso e cara de pedófilo olha atentamente para a tela passando a mão pelo rosto. O anular da mão esquerda tem uma aliança de ouro. O indicador de vez em quando entra numa das narinas do rapaz, dá umas voltinhas, troca de lugar com o mindinho. Ao lado dele, uma bichinha nova, de boné e óculos escuros, sentadinha com as pernas fechads. Deve estar lendo os scraps no Orkut ou, pior, atualizando o Twitter.  Outras bichinhas, não tão novas, distribuem-se pelas outras mesas. Três delas usam boné vermelho.  São tão estilosas que eu — morador do prédio aqui em cima e usando roupas de ficar em casa — me sinto um mendigo. Atrás de mim, um casal hétero consulta roteiros de viagem. Agora há pouco estavam localizando João Pessoa no Google Maps. Agora estão procurando informações de uma agência de viagens. Devem ser gringos, de passagem por São Paulo a caminho de lugares mais interessantes. Inveja.

Toda essa gente tem suas razões para estar numa lan house agora. Só eu não tenho nada a esconder e tenho uma conexão de 2Mbps logo ali, três andares acima da minha cabeça, num computador decente, com minhas músicas para ouvir. Só que eu não posso usar minha conexão. Estou aqui na lan house, cercado de gente estranha e, percebi só agora, com um ventinho gelado nas costas. Desci para registrar uma reclamação no site da Anatel, que foi a única ação que deu resultado no passado. Mas estou muito puto, não quero desabafar com essas pessoas estranhas (com o casal, talvez, mas eles vão ficar falando da merda da viagem deles), então vim aqui desabafar com vocês.

(Eu não queria ser um desses blogueiros que torram o saco dos leitores reclamando do atendimento que recebem das prestadoras de serviço. Mas eu sou cliente da Telefônica, né?)

Minha alegria começou na madrugada de sábado, quando eu usava a internet para uma atividade importantíssima:  jogar Counter Strike com os camaradas. No meio de uma manobra arrojada para atacar os terroristas — que terminou, como nas doze partidas anteriores, com minha morte precoce e patética — a internet entrou em coma. Já eram três da manhã, fui dormir. À tarde, quando acordei, tinha internet novamente. No domingo, ela não resistiu e entregou a alma ao Criador. Mas domingo é dia de ir visitar os pais e os sogros, encher o bucho e ver a eliminação d’A Fazenda. Nem me preocupei.

Só que ontem de manhã eu continuava sem internet. À noite também. Hoje de manhã, idem. Ligo para a Telefônica e fico meia hora ouvindo uma versão constrangedora de I Can’t Help Falling In Love With You enquanto espero a moça do call center terminar de lixar as unhas e contar para as caléga os detalhes do boquete que fez ontem no cobrador de ônibus (“… e agora eu não pago mais passagem no 669A, olha que beleza…. Telefônica, bom dia, em que posso ajudá-lo?”)

Bom, vocês sabem o resto: a moça pergunta se eu já desliguei e liguei de novo, se já tirei e coloquei os cabos de rede e de telefone, se já enfiei um dedo na placa de rede e outro no cu da mãe dela, essas coisas. No fim, diz que eu tenho que esperar de 24 a 72 horas pelo contato de um técnico. Eu digo que não posso esperar merda nenhuma, que preciso da conexão, que eu trabalho com essa porra, que ela trabalha numa empresinha de merda, que eu espero que ela pegue Aids do cobrador e morra. Ela pede para eu esperar um minutinho e eu fico mais meia hora ouvindo o diabo da música enquanto ela me xinga, faz vodu pra mim, liga para o cobrador do 669A para desabafar e dizer que passa na garagem “depois de largá do serviço”. Outra puta me atende, conta a mesma história, eu xingo tudo de novo. Ela diz que eu tenho que esperar e pede para eu anotar o protocolo. Eu mando ela enrolar o protocolo em volta de um cabo de enxada e socar no cu do pai dela. Ela desliga.

A Telefônica é a empresa mais safada que eu já vi. E só metade da culpa é dos espanhóis: a outra metade é da porra do Estado brasileiro, que privatizou monopólios, em vez de abrir para a concorrência. O resultado é que eu fico refém da Telefônica, e tomo bem gostoso no meu cu preto quando a merda da rede deles cai — o que agora acontece com tanta freqüência que já tem nego ligando lá pra reclamar quando a internet funciona.

E eu, que trabalhei uns anos com jornalismo de tecnologia, fico pensando: será possível que não tem UM puto dum jornalista investigando essa história? Procuro aqui e ali e tudo o que vejo são notas dizendo que o sinal da Telefônica caiu, seguidas de notas da empresa dizendo que sente muito e que está trabalhando constantemente para foder-nos com areia e nos ver sorrir. Sério, meu povo: não tem ninguém indo atrás dessa história? Nada, nada? Um dossiê, que seja?

Resultado

Uau! 90 comentários para me ajudar a escolher um carro velho. Tive o trabalho de contar as opiniões positivas e negativas para cada modelo, e classificá-los de acordo com o saldo. Até agora, Corsa (+6), Monza (+5), Corolla (+4) e Subaru (+4) são os melhores. Os piores são o Daewoo Espero (-3), o Hyundai Accent (0) e, para minha surpresa, o Escort (também -3). Destaques para dois que pontuaram bem e nem estavam na lista, Xsara (+3) e Santana (+3). Outros que também não estavam na lista pontuaram +1: Kadett, Civic, Astra/Vectra importados, Verona, Renault 19 RN e Renault Mégane.

Resumindo, complicou mais ainda: consegui descartar os coreanos e o Escort de minha lista; em compensação, entraram outros sete modelos na parada. Muito obrigado, queridos leitores.

Carro velho

E aí que este mês eu termino de pagar o Corsa (aplausos!), e já vou vender o coitadinho. Tenho contas a equilibrar, e calculo que vão me sobrar uns 10 ou 12 mil reais. Como quero evitar entrar em outro financiamento, quero comprar outro carro à vista. Só que não quero carroça: me acostumei com travas elétricas, direção hidráulica, a veadagem toda; me cansei de motor 1.0. Minhas opções, portanto, se reduzem a carros com mais de dez anos de fabricação, a maioria importada. Já sei das restrições: seguro, só contra terceiros. E não sei o que é mais difícil: encontrar peças ou vender o danado. Mas não me importo de me casar com um carro, desde que ele preste — e seja de boa família. E só uso carro nos fins de semana. Então fiz uma lista de possíveis candidatos a ocupar a vaga em minha garagem, ou melhor, no estacionamento da Rua Aurora:

Esse negócio está um inferno. A marida não agüenta mais me ouvir falar em carro; justo eu que nunca liguei para isso. Cada dia eu chego em casa decidido por um modelo; ela quer me jogar pela janela.

Minha lista tinha também o Ford Taurus, mas o motor 3.8 bebe mais do que corno inconformado. O Jeep Willys é o grande sonho de infância, mas é impraticável como único carro: bebe mais do que o Taurus, anda muito menos, é desconfortável e coisa e tal. Ainda vou ter o meu, mas só quando tiver condições de sustentar dois carros. Quanto aos coreanos, não sei se prestam mesmo. Os donos dizem que sim, mas se fosse verdade só tinha carro coreano no Bom Retiro. Não é o que acontece: coreanos e judeus parecem gostar de carros japoneses (os bolivianos dirigem máquinas de costura).

Porque estou contando isso tudo: é muito difícil decidir tendo por base só os fóruns, clubes online e comunidades do Orkut. Cada proprietário diz que seu carro é o melhor do mundo, sem apresentar argumentos. Os detratores do carro fazem a mesma coisa: “Esse carro é um lixo porque é velho/importado/desvalorizado/invendável”, mas não se esforçam para provar seu ponto de vista. Bom, então o negócio é apelar para meus distintos leitores. Só aceito opinião de quem tenha um desses carros, ou conviva com alguém que tenha. E não adianta vir com “Ah, se eu fosse você eu não entrava nessa roubada”, porque eu já decidi comprar um carro velho, barato e ficar alguns anos sem entrar em financiamento.